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O pesadelo da automedicação Imprimir E-mail
Escrito por Ronaldo Trentini   

Automedicação é prejudicial à saúde. Certo. Todo mundo sabe disso. Volta e meia, a Vigilância Sanitária alerta sobre os riscos de se consumir medicamentos sem o acompanhamento médico. Na sequência, a imprensa produz matérias à exaustão, falando sobre esses riscos.

De fato, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Farmacêutica, cerca de 20 mil pessoas morrem por ano no Brasil, vítimas do consumo indiscriminado de remédios. Na maioria das vezes em decorrência de intoxicação e reações de hipersensibilidade ou alergia ao medicamento.

Ninguém discute que a automedicação é perigosa. Mas existe uma ponta de arrogância nas análises sobre o tema. É inevitável imaginar a autoridade de saúde – do técnico da Vigilância do menor município da nossa Federação até o Ministro da Saúde – constatando as estatísticas negativas sobre o problema e apontando o dedo para o culpado do problema: o paciente.

Para quem coordena as ações de saúde no país, a culpa está sempre na população. É ela quem frequenta a farmácia mais próxima como se passeasse por um shopping, atrás de analgésicos, antiinflamatórios e antiácidos vendidos à rodo em promoções. Os técnicos e burocratas da Saúde não olham para o outro lado da divisória. Não se afastam um passo sequer para perceber o tamanho do problema. O buraco, nesse caso, é mais em cima.

Imagino uma dona de casa recostando-se no sofá da sala atormentada por uma enxaqueca. Consciente de que não pode tomar um medicamento sem orientação médica, ela corre ao posto de saúde mais próximo ou ao seu plano de saúde para marcar uma consulta. Ela terá que esperar no mínimo três meses para ser atendida. Serão três meses de muita dor de cabeça.

Não é à toa que o brasileiro médio – e não precisamos estabelecer uma grande distinção de classes – recorre à farmácia. O acompanhamento médico não existe. É fácil cobrar atenção do consumidor/paciente. Mas cadê o médico quando se precisa dele?

Falando em orientação médica, lembro-me de um caso ocorrido com uma senhora, com parentesco com a minha família. Essa senhora reclamou durante semanas de dores nas costas. Passou por atendimento médico várias vezes e iniciou um tratamento com um ortopedista. Nas consultas sempre rápidas, nenhum dos médicos teve a idéia de investigar melhor aquela dor. E ela morreu vítima de pneumonia. Todos os remédios para dores nas costas estavam devidamente receitados.

Ao invés de campanhas, os órgãos que monitoram ações de saúde deveriam exigir de seus superiores o atendimento médico imediato. Um atendimento médico eficiente, rápido, e com exames de apoio para que o diagnóstico seja preciso. Senão o problema não cessa. Nenhuma campanha ou matéria no jornal será suficiente.

Ronaldo Trentini
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